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Referência: 8383
Autor: D. Manuel Madureira Dias
Editora: Secretariado Nacional de Liturgia
Número de Páginas: 240
14.8 x 21 cm
«As calamidades não são todas da mesma espécie: fome, guerra, epidemias ou pestes, cataclismos ou perseguições...De tudo isto parece falar-nos o Apocalipse. Mas, muitas vezes, tais calamidades não passam de imagens simbólicas para nos garantir que, por mais duras e cruéis que elas se afigurem, Deus continua a amar-nos e a estar do lado de todos quantos O queiram seguir com fidelidade.
Cristo morreu, por todos numa cruz. Aparentemente, a sua morte foi um fracasso!
Mas, ao terceiro dia ressuscitou e está vivo no seio do Pai, como corpo imolado e sangue derramado, para salvação da humanidade!
Cristo venceu a morte! Nenhuma calamidade será maior que a força da sua ressurreição.
É melhor cair nas mãos de Deus do que nas mãos dos homens!»
Prefácio
P. Mário Sousa
Presidente da Associação Bíblica Portuguesa
Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. Vi então um anjo poderoso, proclamando com voz forte: «Quem é digno de receber o livro e de quebrar os selos?» Eu chorava muito, porque ninguém foi considerado digno de abrir nem de ler o livro. (Ap 5,1s.4)
A impossibilidade de alguém se aproximar «daquele que está sentado no trono» (Deus, que governa a história) e de «receber e abrir o livro» (o projeto salvífico) que está completamente inacessível («sete selos»), gera em João, o vidente de Patmos, um desespero imenso. Tudo se transforma quando surge o Cordeiro (5,4ss), que, tendo oferecido a sua vida, se apresenta com a força vitoriosa da sua ressurreição («de pé, como que imolado»: 5,6). Por aquilo que realizou na cruz, apenas Jesus tem capacidade («é digno») de quebrar os selos e revelar o que o livro contém: o projeto de Deus para a história.
Salvaguardada a devida proporção, o desespero sentido pelo vidente é semelhante ao que frequentemente invade o leitor que se aproxima do livro do Apocalipse: deseja abrir as suas páginas e contemplar o que encerram, mas elas teimam em permanecer seladas, porque escritas em linguagem simbólica, de não fácil entendimento. É que embora o símbolo perpasse a Bíblia, o Apocalipse usa-o de uma forma nova e intensa, na medida em que com ele constrói toda a sua teologia. E recorre-lhe por três razões fundamentais:
1)Pela realidade transcendente daquilo de que se fala. O livro narra a luta entre Deus e as forças demoníacas, que se manifestam nas diversas realizações históricas. Trata-se de uma realidade que ultrapassa a experiência humana, inenarrável em linguagem descritiva; a linguagem evocativa do símbolo permite ultrapassar a barreira do imanente para o transcendente;
2)Possibilita uma releitura da história concreta, a partir da atualização das categorias implicadas no símbolo. Por exemplo, a Babilónia – como categoria que designa as estruturas terrestres (políticas, económicas, sociais, etc.) fechadas e hostis à transcendência – para a comunidade do Apocalipse é Roma, mas para os leitores de hoje tem outra identificação (sistema económico-financeiro, estruturação social, etc). O próprio processo histórico permite uma releitura contínua da linguagem simbólica, o que significa que, em cada época, a comunidade poderá encher as formas do símbolo de conteúdo concreto;
3)Envolve o destinatário. Enquanto a linguagem descritiva e realista apela diretamente à inteligência do destinatário, a linguagem simbólica tem uma força tal que envolve a pessoa toda: inteligência, imaginação, sentimentos, memória, emoções… No Apocalipse isto acontece em ambiente litúrgico (Ap 1,3.10), ou seja, é algo que, da parte de Deus, pretende provocar (no sentido de despertar: «quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas»: 2,7.11.17.29; 3,6.13.22) e envolver a pessoa em todas as dimensões do seu viver.
Ora, se os fios simbólicos que tecem todo o livro lhe dão uma beleza teológica, litúrgica e espiritual de grande densidade, também tornam o seu conteúdo carente de uma chave de leitura, que permita abrir as suas páginas seladas e contemplar o que revela.
O Sr. D. Manuel Madureira teve a coragem de tomar o livro do Apocalipse das mãos de João e, através do estudo que hoje nos entrega, abrir os seus sete selos: o do enquadramento histórico e o da perspetiva literária, o da complexidade simbólica e o da dimensão litúrgica, o da pragmática, e, sobretudo, o da riqueza espiritual e o do significado eclesial e pastoral. Sete dimensões que revelam não apenas a profundidade do estudo, como também a fineza intelectual, a intuição pastoral e a sensibilidade espiritual do seu autor. Nada que surpreenda quem o conhece. Tal como as trombetas, de que nos fala João (8,6ss), os catorze capítulos desta obra vão soando sucessivamente, num crescendo contínuo, que conduz, de interpretação em interpretação, até à apoteótica manifestação da Jerusalém do Céu (21,1ss). Destas páginas emerge o professor (foi-o durante muitos anos no Instituto Superior de Teologia de Évora), o apaixonado pastor (cujo ministério marcou a Igreja do Algarve) e o mestre espiritual (de quem o testemunho ficou gravado na alma de mais do que uma geração de padres e leigos). Por isso, é natural que termine cada capítulo com um convite à releitura espiritual do que antes afirmou, o que muito enriquece o seu estudo e o leitor.
A edição desta obra no particular contexto de pandemia em que vivemos, com todas as consequências pessoais, familiares, sociais, laborais e eclesiais que consigo traz, é um convite a renovar a experiência espiritual do vidente de Patmos e da sua comunidade. Arrebatado pelo Espírito (o que acontece no contexto celebrativo e comunitário do «dia do Senhor»: 1,10), João torna-se instrumento divino para que a comunidade, em dificuldades, possa ler e interpretar a sua situação à luz da Palavra (1,3). Algo semelhante, caro leitor, pode acontecer pela simplicidade profunda desta obra que hoje lhe chega às mãos: ela é uma mediação que permite entrar na compreensão de um livro que provoca e desinstala. Tal como aos discípulos de então, João, através do Sr. D. Manuel Madureira, vem recordar-nos que a história («o livro selado») está nas mãos de Deus, e que, embora seja necessário lutar contra as forças do Mal que às vezes parecem prevalecer, o Senhor terá sempre a última palavra. Ele é «o Alfa e o Ómega», o princípio e o fim último da história humana (21,6; 22,13).